16/07/2019

Protetores solares e o ambiente

Sabemos as consequências da exposição solar excessiva. Conhecemos a necessidade de utilizar proteção solar. Mas será que conhecemos o impacto dos protetores nos ecossistemas?

Disclaimer

Não sou médica, investigadora química, bióloga, nem especialista em toxicologia. Não sou uma autoridade competente nesta matéria nem tenho qualquer pretensão de achar que o que está aqui escrito vale mais do que as legislações e regulamentações de cosmética / medicina portuguesas/europeias/mundiais. O que estou a expor são factos retirados de estudos científicos publicados, que poderão encontrar nas referências, no final dos stories e, através das referências, é muito fácil retirá-los da Internet (mesmo que não tenham subscrições nos sites das revistas científicas, uma pesquisa avançada no Google com o tipo de ficheiro em PDF costuma resolver o problema – os que não encontrarem e quiserem ler, peçam que eu envio!).

Percebo o suficiente de estatística, modelos de regressão (usados nos estudos que li) e de análise matemática para conseguir ler e compreender grande parte dos estudos, MAS não consigo dar-lhes o contexto que alguém da área certamente dará. Ainda assim, enquanto indivíduo livre e pensante (quero acreditar), quis investigar o assunto e ver onde o que está escrito faz fit ou não com o bom senso.

É importante não desconfiarmos de tudo o que são regulamentações, porque as mesmas existem para nos proteger. Se um ingrediente é aprovado como seguro pela União Europeia, a minha primeira reação é: eles sabem mais do que eu e investigaram mais do que eu, portanto, independentemente do que possa achar, os factos estarão do lado deles e a minha segurança está, à partida, assegurada (digo à partida, porque há pessoas com problemas de saúde específicos que não reagirão como a “maioria da população” aos ingredientes aprovados).

Parto para este “estudo” com a plena consciência de que, em matérias de cosmética e de proteção solar (e de saúde no geral), os químicos não são intrinsecamente maus e os “naturais” não são forçosamente bons para nós. Há químicos nocivos e químicos não nocivos. Há produtos naturais nocivos e não nocivos. Sobretudo, há características especiais a cada um de nós e não reagimos todos da mesma maneira aos ingredientes, sejam eles “naturais” (neste caso, da proteção solar, falamos de minerais) ou químicos (neste estudo focamo-nos nos orgânicos, como a oxibenzona, que estão a ser alvo de atenção mediática).

Estruturei o raciocínio tendo em conta a seguinte ordem:

1. A exposição solar – benefícios, consequências e cuidados a adotar

2. Filtros orgânicos

2.1 Efeitos nos recifes de corais

2.3 Efeitos nos animais marinhos

2.2 Efeitos nas águas

2.4 Efeitos nos humanos

3. Filtros minerais

4. Conclusões dos estudos

5. Referências

6. Discussão / Conclusões PESSOAIS

A exposição solar – Benefícios, consequências e cuidados a adotar.

A Direção geral de saúde explica que “A vitamina D tem uma importante função no organismo, pois contribui para o aumento da absorção de cálcio e fósforo dos alimentos, para o fortalecimento dos ossos, para a função imunitária e para a formação de células sanguíneas. São suficientes 5 a 15 minutos de exposição solar casual das mãos, face e pernas duas a três vezes por semana para manter os níveis de vitamina D altos.” (17). No entanto, sabemos que uma em cada 5 pessoas vai desenvolver algum tipo de cancro de pele ao longo da sua vida (nos EUA) e mais de 5 milhões de novos casos de cancro de pele foram diagnostiacados nos EUA em 2018 (American Cancer Society, Cancer Facts and Figures, 2018). Existem mais casos de cancro de pele em cada ano do que da mama, próstata, pulmões e cólon combinados. (2).

Existe consenso entre as autoridades competentes (nacionais e internacionais), bem como dentro da comunidade científica (dos estudos sobre os quais me debrucei) em relação aos cuidados básicos a adotar durante a exposição solar (1), sabendo que os efeitos da radiação UV em eritemas, fotoenvelhecimento e desenvolvimento de cancro da pele são muito conhecidos. Estes cuidados são os também recomendados pela Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (10).

– Preferir zonas com sombra

– Evitar horas de maior exposição (12h-16h)

– Usar roupa que proteja a exposição solar – incluindo chapéus de abas largas e óculos de sol

– Colocar protetor solar nas áreas da pele expostas ao sol, relembrando que os raios UV não vêm só “de cima”, voltando a aplicar o protetor sempre que necessário (depois de mergulhos, se sentirem que transpiraram muito, se tiver passado o tempo de proteção que o protetor garante…).

Os filtros orgânicos

Os filtros orgânicos (químicos) “em debate” e como os encontrar nas embalagens (1) (8)

Segundo Schneider & Lim, 2018 (1), existem 4 filtros solares cuja comunidade científica tem vindo a avaliar, devido às preocupações levantadas acera das consequências ambientais da utilização dos mesmos:

– Oxibenzona (bezofenona-3 ou 131-57-7 ou oxybenzone ou 1-HYDROXY-4-METHOXYBENZOPHENONE ou Benzophenone-3 ou Oxybenzon)

– 4-metilbenzilideno-cânfora (4-Methylbenzylidene camphor ou 36861-47-9 ou 4-Methylbenzylidenecamphor ou 3-(4-Methylbenzyliden)camphor)

– Octocrileno (Octocrylene ou 6197-30-4 ou 2-Ethylhexyl 2-cyano-3,3-diphenylacrylate ou Octocrilene ou 2-Propenoic acid, 2-cyano-3,3-diphenyl-, 2-ethylhexyl ester)

– Octinoxato (Octinoxate ou 2-Ethylhexyl 4-methoxycinnamate ou Octyl methoxycinnamate ou 83834-59-7 ou 5466-77-3)

É importante reparar que todos os filtros acima se encontram aprovados pela União Europeia e que, inclusivamente a oxibenzona foi novamente revista em 2017, tendo sido a sua concentração máxima nos protetores solares e produtos cosméticos reduzida de 10% para 6%. Portanto, embora os investigadores assumam que estes filtros devam ser mais estudados, a EU já tinha estudado recentemente alguns. Este estudo foi desenvolvido depois da investigação da União Europeia.

Os efeitos de alguns filtros orgânicos nos corais

As barreiras de corais são componentes críticas para o nosso ecossistema, suportando mais de um milhão de espécies de peixes, invertebrados e algas. Uma vez que entram em simbiose com algas (zooxanthellae), a fotossíntesse deste contacto traz energia ao coral e a alga produz cores vibrantes no mesmo. No entanto, quando existe stress oxidativo resultante de temperaturas elevadas nos oceanos, agentes poluentes, etc, os corais expelem as algas da sua superfície, acontecendo um processo de branqueamento de corais (porque sem a alga a fotosíntesse não é realizada e o coral deixa de receber a energia que provoca as suas cores vibrantes). Com o tempo, este processo de branqueamento leva geralmente à morte do coral (colocando em risco os organismos que dele dependem para a sua sobrevivência). (1)

Uma das frases que mais temos ouvido nos media é “os protetores solares danificam os corais”. Será que é verdade? Vamos ver o que nos dizem as investigações científicas nesta área.

Num estudo sobre o impacto da oxibenzona nos corais (13) foi utilizada uma espécie de alga verde (Chlamydomonas reinhardtii). O estudo foi conduzido in vitro e a alga foi exposta a diferentes níveis de oxibenzona, com as concentrações mais baixas equivalentes às encontradas na Natureza (0,01 a 0,1 partes por bilião) e as mais elevadas até 5000 partes por bilião (muito acima do que existe hoje em dia na Natureza, se virmos que, no Japão, os níveis de oxibenzona mais elevados são de 3.8 partes por trilião). Com efeito, os valores mais elevados de oxibenzona (5000 partes por bilião) resultaram numa diminuição da clorofila e do crescimento da alga.

Para além deste estudo, um conjunto de investigadores, Danovaro et al (9) (que andam a ser muito citado nos artigos que dizem que a “ciência confirmou que os protetores solares danificam as barreiras de coral) propuseram um mecanismo relativo ao branqueamento dos corais, que explica que alguns filtros UV ativam vírus nos corais, o que culmina em stress oxidativo, expulsão das algas e, como consequência, branqueamento dos corais. Foi verificado neste estudo que, in vitro, concentrações de 33 a 50 partes por milhão de oxybenzona levam ao branqueamento e morte dos corais (portanto, na melhor das hipóteses não são os “protetores solares” que danificam os corais, mas sim a oxibenzona ou os “protetores solares com oxibenzona”).

Para saber se estes valores são, afinal, danosos para os ecossistemas marinhos precisamos de saber, afinal, quais os valores de concentração de oxibenzona que encontramos nos nossos oceanos. Será que estão dentro das 33 a 50 partes por milhão que o estudo aponta como nocivos?

Mas serão estes valores os que encontramos nos ecossistemas marinhos hoje em dia?

Se virmos que as concentrações mais elevadas de Oxibenzona nas Ilhas Virgens são de, no máximo 1400 partes por bilião, que no Hawaii chegam no máximo às19.2 partes por bilião, no Chile temos valores até 2,6 partes por bilião e na Colombia temos, no máximo 5.38 partes de oxibenzona por bilião, percebemos que os valores que encontramos nos ecossistemas marinhos “reais” (e não modelações in vitro) são claramente inferiores (dito pelos investigadores, não por mim) aos que são apontados no estudo como estando no espectro da toxicidade baixa para o branqueamento de corais. Para termos uma ideia, se compararmos o mínimo de toxicidade que o estudo avança como potencialmente perigosa (33 partes por milhão) com os valores mais elevados que encontramos nos oceanos (1400 partes por bilião nas Ilhas Virgens), vemos que seria necessário aumentar mais de 23 vezes a concentração de oxibenzona nos oceanos para atingirmos o mínimo que o estudo aponta como letal.

Agora vamos a uma consideração de OPINIÃO: é impossível aumentar mais de 23 vezes a concentração de oxibenzona nos oceanos? Não me parece impossível, porque a população continua a crescer e o consumo de protetores solares também (dado que está mais do que provada a sua importância na prevenção de um dos melanomas mais comuns, relacionado com a exposição solar…). Parece-me que vamos aumentar 23 vezes a concentração de oxibenzona nos oceanos de um dia para o outro? Não faço ideia, mas parece-me um valor estupidamente elevado. Seria bom sinal (por um lado) haver este aumento, porque significaria que as pessoas estavam a utilizar mais proteção solar, honestamente, mas aumentar 23 vezes não é aumentar para o dobro o consumo (que já seria difícil de um ano para o outro), nem para o triplo, nem para o quádruplo. Significaria que, se hoje 100 milhões de pessoas usarem proteção solar com oxybenzona, “amanhã” teriam de 23 mil milhões de pessoas usar este tipo de proteção. Estão a perceber o aumento exponencial que teria de haver na aplicação de protetores solares com oxybenzona?

Por outro lado, sabemos através de outro estudo, também in vitro (3) que a oxibenzona é bioacumulativa, o que pode significar que, ficando acumulada a oxibenzona na vida marinha (imaginem que temos oxibenzona numa alga, que não é capaz de a remover, depois vem um peixe pequenino e come a alga, passando a ter ingerido a oxibenzona que se encontrava na água e a oxibenzona presente na alga. Vem um peixe grande, come o pequenino e, para além do que ingeriu na água, ingere a da alga e a do peixe pequenino – estão a perceber a sequência?), a cada ano os valores de oxibenzona nos oceanos vão (raciocínio feito por mim, leiga na matéria, numa lógica puramente matemática!) ter de ser somados aos que já se encontrava no ano anterior nos mesmos ecossistemas. Isto faz com que um aumento de 24x na concentração de oxibenzona nos oceanos seja bastante mais fácil de alcançar (se o consumo em 2019 for exatamente ao consumo em 2018, significa que, de um ano para o outro, os níveis de oxibenzona podem duplicar (digo podem porque a bioacumulação não funciona de maneira tão óbvia e linear como o que descrevi). Ou seja, fazendo as contas “à gestor” assumindo o famoso ceteris paribus (em que assumimos que “tudo o mais é constante”) em 24 anos teríamos efetivamente atingido os níveis mínimos letais que Donovan et al propõem na sua investigação – sendo que aqui estamos a misturar a bioacumulação com a oxibenzona presente nas algas de coral, ou seja, estamos mais a falar sobre a concentração de oxibenzona no total dos ecossistemas marinhos do que apenas nas barreiras de coral. Mas repito que esta última parte é mais “contas” minhas para tentar perceber o impacto da oxibenzona nos nossos ecossistemas do que factos presentes nos artigos.

Um dos estudos que li (2) ressalva que existe já evidência científica que afirma que as mudanças nas temperaturas dos oceanos (resultado das alterações climáticas) continuam a ser o principal fator que contribui para o branqueamento dos corais. As alterações climáticas são então apontadas como as principais responsáveis pela morte e branqueamento dos corais (Hughes et al., 2017), existindo também outros factores que contribuem para a mesma morte e branqueamento dos corais, como a acidificação dos oceanos (Cyronak et al., 2018), o escoamento dos oceanos (Brodie et al., 2010) e as descargas de esgotos, cujo impacto no branqueamento dos corais pode ser consequência de inúmeros fatores, como mudanças na salinidade (Aguilar et al, 2010) ou contagem de bactérias (Staley et al, 2017). (2)

Os efeitos de alguns filtros orgânicos para os animais

Grande parte dos estudos realizados com filtros solares orgânicos, recorre a ratos de laboratório ou a análise de animais marinhos. Assim, existe alguma informação disponível que nos permite perceber o impacto que estes filtros têm nos mais diversos sistemas (reprodutivos, sobretudo) de diferentes animais. Isto não significa que os resultados possam ser diretamente extrapolados para os sistemas humanos equivalentes, mas permite-nos perceber a necessidade de mais estudos relativamente à presença dos filtros orgânicos no nosso corpo.

Um estudo (1) explicou que, em ratos de laboratório, a 4-MBC (ou 4-metilbenzilideno-cânfora) interfere com o comportamento sexual e práticas reprodutivas.

Em algumas espécies de peixe, estudos de laboratório demonstraram também que a exposição a concentrações elevadas de oxibenzona conduziram a uma diminuição na produção de ovos, com significativamente menos ovos a eclodir. Embora as concentrações presentes no peixe fossem baixas, os investigadores ressalvaram a importância de considerar a bioacumulação e a biomagnificação da oxibenzona. Assim, Braush & Rand examinaram a bioacumulação e descobriram que os níveis de oxibenzona eram superiores no peixe do que na água. Como estes filtros não são removidos ou “partidos” pelos organismos que se encontram na base da cadeia alimentar, quando um animal ingere estes organismos, fica com uma concentração mais elevada do filtro. Isto sugere, segundo os autores, que existe uma possível implicação negativa para os humanos que ingerirem animais marinhos, embora não tenham ainda sido identificados resultados adversos claros em humanos.

Confirmando os efeitos da oxibenzona nos sistemas reprodutores dos animais marinhos, um outro estudo (3) mostrou que a oxibenzona (neste estudo referida como bezofenona-3), pode causar disrupções endócrinas. No entanto, admitem que existe pouca informação disponível sobre a sua toxicidade nos peixes que habitam os recifes de coral e que, neste estudo, não foram verificadas alterações na taxa de sobrevivência e crescimento dos peixes que foram expostos a este filtro, sendo necessário realizar mais estudos sobre o efeito comportamental da oxibenzona nos peixes (3).

Os efeitos de alguns filtros orgânicos nos humanos

A oxibenzona tem a maior absorção percutânea e foi identificada na urina humana e leite materno (12). No entanto, não houve nenhum efeito tóxico relatado em seres humanos desde 1978, quando se tornou comercialmente disponível. Um estudo de modelagem matemática estimou que seriam necessários 35 a 277 anos de uso diário para humanos para alcançar os níveis séricos equivalentes de oxibenzona observados em modelos de laboratório (com ratos). Para além disto, ficou comprovado que a oxibenzona in vitro tem efeitos antiandrógenos, proestrogênicos e antiestrogênicos (11).

Outro estudo (5) explica que todos os componentes dos protetores solares investigados penetram a pele, mas apenas a benzofenona-3 (ou oxibenzona) passa em quantidades significativas (10% da dose aplicada), sugerindo os investigadores que este ingrediente demonstrou uma penetração suficientemente alta para exigir investigações futuras acerca da sua aplicação continuada.

Um outro estudo ainda (6) debruçou-se sobre a investigação de cinco tipos de benzofenonas na qualidade do esperma e descobriram que a BP-2 (tetrahidrobenzofenona) se encontra associada a uma diminuição da concentração de esperma, a esperma mais imaturo e outras anormalidades. Não foi descoberta nenhuma relação entre o esperma e a oxibenzona neste estudo.

Um último estudo (7) concluiu ainda que é possível que a exposição valores elevados de Di-hidroxibenzofenona  possa estar associada a endometriose.

Ficou também demonstrado que, in vitro, o Octinoxato tem relação com a proliferação de células de cancro da mama MCF-7 (1), mas mais estudos são necessários até compreender o efeito e impacto “real” deste filtro.

Os efeitos de alguns filtros orgânicos na água (ETARs, oceanos, piscinas)

Apenas aproximadamente 4% da dose de oxibenzona aplicada durante um estudo (1) foi excretada na urina, deixando a maioria do filtro na pele para ser lavado em fontes de água naturais ou no chuveiro, permitindo a entrada da oxibenzona no fornecimento de água.

Os filtros UV, tendo baixa solubilidade em água, alta lipofilicidade e alto coeficiente orgânico de carbono-água, são muito difíceis de remover nas ETARs. Ficou também provado que a oxibenzona não consegue ser eficazmente removida pelo tratamento de águas, permitindo que entre no abastecimento de águas enquanto efluente (14). O mesmo estudo confirma ainda que as concentrações de filtros orgânicos em diferentes fontes de água variam de acordo com a estação, tendo concentrações mais elevadas durante o Verão. Também já foram encontrados filtros UV no Ártico, sugerindo que as correntes de água dispersam os filtros para além do seu local inicial de deposição (12).

Para além de encontrados em fontes naturais de água, filtros UV orgânicos foram também encontrados em água com cloro, como as das piscinas. Aqui existirá um risco acrescentado, dado que os filtros orgânicos podem reagir com o cloro, criando subprodutos tóxicos (chamados produtos de transformação bromados). Um estudo (15) examinou piscinas de água com cloro para detetar a presença de  dioxibenzona, oxibenzona, avobenzona, octinoxato e octocrileno. Destes cinco, o único que não reagiu com o cloro foi o octocrileno. De facto, quando comparado com controlos de água sem cloro, a oxibenzona em conjugação com o cloro provocou uma taxa de mortalidade de células mais elevada (em estudos in vitro com ratos de laboratório). Para determinar o impacto de subprodutos resultantes da reação entre filtros UV orgânicos e cloro na saúde humana, são necessários mais estudos.

Os filtros inorgânicos

Como alternativa aos filtros inorgânicos já apresentados (ou filtros “químicos”), existem também filtros inorgânicos (ou “minerais”) aprovados para a proteção contra os raios UV.

Ao contrário dos filtros orgânicos, que contêm moléculas que absorvem a radiação UV e a transformam em radiação de baixa energia, formando uma proteção química na pele, impedindo que a radiação UV penetre na pele, os filtros inorgânicos atuam através de uma barreira física, sendo composto por minerais que ficam sobre a pele sem serem absorvidos. Ao cobrirem a pele, os raios batem nestes minerais, sendo refletidos,

Entre os filtros inorgânicos (ou físicos, ou minerais) mais comuns, encontram-se o óxido de zinco e o dióxido de titânio. No entanto, mesmo dentro destas opções minerais, é necessária mais investigação (1). Um estudo recente (16) confirmou que as nanopartículas de óxido de zinco podem fazer desintegrar as membranas celulares e ficar acumuladas no citoplasma, onde interagem com biomoléculas, causando apoptose celular, o que leva à morte celular.

Assim, se o consumidor optar por filtros inorgânicos, tem na mesma de conferir a lista de ingredientes e verificar se existem na fórmula nanopartículas de Óxido de Zinco. Quando o óxido de zinco é usado devidamente, as marcas fazem “questão” de colocar que não tem nanopartículas. Se virem nos ingredientes Óxido de Zinco (um dos filtros minerais mais comuns) sem fazer referência a NÃO TER Nanopartículas, investiguem mais e questionem a marca. Muitas usam nanopartículas de óxido de zinco porque o consumidor neste momento só quer saber do “natural” e não sabe (ou não se lembra ou não quer saber) que nem tudo o que é natural nos faz necessariamente bem.

Conclusões dos estudos

– É muito importante resguardar a pele da exposição solar, preferindo a sobra, evitando as horas de maior calor, utilizando roupa e acessórios fotoprotetores e mantendo o uso dos protetores solares (de SPF30 ou superior) para prevenção de doenças como o cancro da pele (10)

– Com o uso continuado dos filtros orgânicos, podemos assumir que as concentrações dos mesmos nas nossas fontes de água vão continuar a aumentar, uma vez que o aumento das concentrações de filtros orgânicos nos oceanos vai acentuar a bioacumulação e a biomagnificação, podendo (não é certo ainda) vir a trazer consequências negativas para os humanos (1)

– Os níveis de filtros orgânicos detetados no ambiente estão no espectro mais baixo de toxicidade dos estudos in vitro com espécies de corais e não foram ainda identificados efeitos tóxicos para os humanos (1)

– A preocupação com o impacto ambiental dos filtros orgânicos não deve fazer com que se deixe de educar os consumidores para a importância da fotoproteção (onde se encontra incluído o uso de protetores solares) (2)

– Banir alguns ingredientes dos protetores solares com base em resultados preliminares ou resultados obtidos em condições que podem não refletir de modo correto as características dos recifes de coral poderá colocar em risco a divergência de recursos para esforços que poderão não ter nenhum efeito mensurável e reduz o número de ingredientes de proteção solar existentes em grande parte dos protetores solares, que se mostraram muito eficientes na redução das ocorrências de cancro da pele (2)

– Existem dados e literatura que apontam para a ideia de que a bezofenona-3 (oxibenzona) constitui uma potencial ameaça não só para os corais, como sobretudo para os organismos que habitam os corais (4). No entanto, é esclarecido em todos os estudos que é necessária mais investigação para confirmar estes dados.

– Alguns estudos (5, 6, 7) apontam para que algumas benzofenonas possam ter implicações para os humanos ao nível dos sistemas endócrinos e reprodutivo, sendo necessário realizar mais estudos para perceber quais os efeitos e as suas consequências.

Referências

1. Schneider, S. and Lim, H. (2019). Review of environmental effects of oxybenzone and other sunscreen active ingredients. Journal of the American Academy of Dermatology, 80(1), pp.266-271.

2. Sirois, J. (2019). Examine all available evidence before making decisions on sunscreen ingredient bans. Science of The Total Environment, 674, pp.211-212.

3. Chen, T., Hsieh, C., Ko, F. and Cheng, J. (2018). Effect of the UV-filter benzophenone-3 on intra-colonial social behaviors of the false clown anemonefish (Amphiprion ocellaris). Science of The Total Environment, 644, pp.1625-1629.

4. Downs, C., Kramarsky-Winter, E., Segal, R., Fauth, J., Knutson, S., Bronstein, O., Ciner, F., Jeger, R., Lichtenfeld, Y., Woodley, C., Pennington, P., Cadenas, K., Kushmaro, A. and Loya, Y. (2015). Toxicopathological Effects of the Sunscreen UV Filter, Oxybenzone (Benzophenone-3), on Coral Planulae and Cultured Primary Cells and Its Environmental Contamination in Hawaii and the U.S. Virgin Islands. Archives of Environmental Contamination and Toxicology, 70(2), pp.265-288.

5. Jiang, Roberts, Collins and Benson (2001). Absorption of sunscreens across human skin: an evaluation of commercial products for children and adults. British Journal of Clinical Pharmacology, 48(4), pp.635-637.

6. Buck Louis, G., Chen, Z., Kim, S., Sapra, K., Bae, J. and Kannan, K. (2015). Urinary concentrations of benzophenone-type ultraviolet light filters and semen quality. Fertility and Sterility, 104(4), pp.989-996.

7. Kunisue, T., Chen, Z., Buck Louis, G., Sundaram, R., Hediger, M., Sun, L. and Kannan, K. (2012). Urinary Concentrations of Benzophenone-type UV Filters in U.S. Women and Their Association with Endometriosis. Environmental Science & Technology, 46(8), pp.4624-4632.

8. Pubchem.ncbi.nlm.nih.gov. (2019). PubChem. [online] Available at: https://pubchem.ncbi.nlm.nih.gov [Accessed 13 May 2019].

9. Danovaro R, Bongiorni L, Corinaldesi C, et al. Sunscreens cause coral bleaching by promoting viral infections. Environ Health Perspect. 2008;116(4):441-447.

10. www.spdv.pt/ (2019). SPDV. [online] Available at: www.spdv.pt/_cuidados_com_a_pele [Accessed 15 May 2019].

11. Kim S, Choi K. Occurrences, toxicities, and ecological risks of benzophenone-3, a common component of organic sunscreen products: a mini-review. Environ Int. 2014;70:143-157.

12. DiNardo JC, Downs CA. Dermatological and environmental toxicological impact of the sunscreen ingredient oxybenzone/benzophenone-3. J Cosmet Dermatol. 2018;17(1):15-19.

13. Mao F, He Y, Kushmaro A, Gin KY. Effects of benzophenone-3 on the green alga Chlamydomonas reinhardtii and the cyanobacterium. Microcystis Aeruginosa Aquat Toxicol. 2017;193:1-8.

14. Bluthgen N, Meili N, Chew G, Odermatt A, Fent K. Accumulation and effects of the UV-filter octocrylene in adult and embryonic zebrafish (Danio rerio). Sci Total Environ. 2014; 476-477:207-217.

15. Manasfi T, Coulomb B, Ravier S, Boudenne JL. Degradation of organic UV filters in chlorinated seawater swimming pools: transformation pathways and bromoform formation. Environ Sci Technol. 2017;51(23):13580-13591.

16. Siddiqi, K., ur Rahman, A., Tajuddin and Husen, A. (2018). Properties of Zinc Oxide Nanoparticles and Their Activity Against Microbes. Nanoscale Research Letters, 13(1).

17. Dgs.pt. (2019). Verão » Radiação Ultravioleta. [online] Available at: https://www.dgs.pt/paginas-de-sistema/saude-de-a-a-z/verao/radiacao-ultravioleta.aspx [Accessed 17 May 2019].

Conclusões pessoais

Não acho que haja motivos para o alarme que tem vindo a tomar conta dos media acerca deste tema. Sim, existem investigações que apontam para o facto de (alguns) filtros solares orgânicos, como a oxibenzona poderem, NO FUTURO, SE os níveis de concentração destes filtros aumentarem, danificar os corais. A confirmar-se que aumentam, de facto, exponencialmente, poderemos ter de deixar de os usar. Neste momento, com as concentrações que existem, ainda não é por causa da oxibenzona que os corais estão em perigo: o maior perigo para os oceanos continua a ser o aquecimento global. Seria necessário aumentar MUITO (mais de 23x) a utilização de protetores solares para chegarmos aos valores mínimos ESTIMADOS in vitro (diferente da vida real) que foram definidos como causadores do branqueamento dos corais. Até alcançarmos esses valores tão elevados de utilização de filtros UV, já terão sido feitos certamente muitos outros estudos mais conclusivos. Ou seja, neste momento ainda não estamos a colocar os recifes de corais em risco. Mas se os continuarmos / aumentarmos o consumo de oxibenzona, poderemos eventualmente colocar. Isto significa que podemos ir prevenindo, claro, mas sem grandes alaridos e, sobretudo, SEM DEIXAR DE USAR PROTETOR DE UM DIA PARA O OUTRO. Acho que ainda temos algum tempo para investigar e lançar novas soluções para o mercado, que tornem a transição para filtros minerais mais simples (neste momento, dentro do grande consumo, ainda não há muitas marcas com filtros minerais, que sejam seguras e acessíveis para a maioria da população, pelo que é necessário ter cuidado com os “dramas”, sob risco de desincentivar o uso de protetores solares no geral).

Recordo que a oxibenzona foi revista recentemente (em 2017) pela EU e a sua utilização não foi considerada tóxica até 6% (baixaram este valor).

Fiquei também muito curiosa com os potenciais problemas associados a complicações hormonais e vou estar bem atenta a ver quando saem novos estudos acerca deste tema.

No meu caso, como sou alérgica “ao sol” (é complicado de explicar mas, embora nunca apanhe escaldões, fico sempre cheia de borbulhinhas na zona do peito, pescoço e braços, tanto que muitas vezes no verão ando de tops de gola alta!) e atópica, tenho de ter muito cuidado na escolha do protetor solar (com a maioria dos protetores tenho de aplicar primeiro o creme da atopia e só depois o protetor) e isto significa que a textura/aplicabilidade e reação da minha pele vai ser um fator importante na escolha do protetor. Já dentro do “tradicional” protetor de farmácia com filtros orgânicos, é difícil encontrar opções que me sinta confortável a utilizar. Os minerais, regra geral, se tiverem óleo de coco, não são de todo confortáveis para mim e sei que vou acabar por não os usar – a minha pele reage muito mal ao óleo de coco, mas isso são significa que a vossa reaja mal!

Isto para vos dizer que têm de pensar bem no protetor que escolhem porque, ainda que possam preferir um protetor que “por via das dúvidas” não tenha oxibenzona ou outro qualquer filtro orgânico que, depois destes posts, vos tenha deixado mais alarmados, têm de colocar a saúde em primeiro lugar e escolher um que vão usar. Experimentem os protetores minerais, se assim o desejarem e, se for a opção que acham melhor, espero MESMO que adorem a aplicação e usem muito. Agora, se for para deixarem de usar porque “isto de (eventualmente) proteger (potencialmente) o ambiente é muito giro mas não gosto nada da textura”, por favor optem por um com filtros orgânicos.

Entre escolher entre “nenhum protetor” que MUITO PROVAVELMENTE me vai trazer problemas de cancro da pele ou um protetor com filtros orgânicos que apenas POTENCIALMENTE poderá trazer complicações, que ainda não sabemos quais são, a minha escolha vai sempre cair sobre um protetor com filtros orgânicos.

Isto não significa que vá ignorar as conclusões potencialmente mais “alarmantes” dos estudos que li. Embora me tenham parecido exageradamente denunciadas pelos media, a verdade é que os próprios investigadores (formados na área) levantaram preocupações (e eles hão-de saber mais do que eu!). No entanto, todos recomendaram mais estudos antes de se tirarem conclusões, portanto… não as tiremos já nós, leigos na matéria.

Mas, afinal, que protetor irei escolher este ano?

Pois bem, vou tentar evitar os filtros que os investigadores consideram que necessitam de ser mais estudados ou que podem ser POTENCIALMENTE perigosos. Porque odiaria olhar para trás e saber que não liguei a um “potencial dano”, quando há membros da comunidade científica a dar o alerta. Isto porque as regulamentações da União Europeia fazem muito sentido e são uma excelente autoridade, mas entre as entidades regulamentares oficiais da União Europeia (entidades que, apenas por pertencerem à EU têm claramente uma potencial parcialidade política/económica) e (vários) estudos conduzidos por grupos de cientistas independentes, sem vínculo a nenhuma empresa e sem objetivo nenhum para além do de informar, tendo a confiar mais em entidades independentes (e não, não sou nenhuma anarquista. Só acho que isto é uma questão de bom senso).

Vou experimentar opções minerais. De preferência embalados de forma sustentável e que não tenham de vir do outro lado do mundo, para minimizar a pegada de Carbono. Posso dizer-vos que é um enorme desafio, mas existem protetores assim.

No “vosso caso”, se não tiverem problemas com o óleo de coco (e quiserem utilizar protetores com filtros minerais) já há muitas opções (inclusivamente na farmácia).

Não posso deixar de suplicar (malta, imaginem-me de joelhos, ok??) que, se não gostarem das fórmulas minerais, por favor usem as que contêm filtros orgânicos. O cancro da pele não é brincadeira nenhuma. Se forem para o sol, ponham protetor. Respeitem os horários de aplicação do mesmo (de acordo com o SPF). Mas, antes de pensar sequer no protetor, não se esqueçam: evitar as horas de maior exposição solar (12h-16h) e usar roupa apropriada para proteção é o primeiro passo. Eu sei, eu também adoro praia e adoro bronze, mas adoro ainda mais viver. O bronze sai ao final de umas semanas. O cancro da pele não. Pensem bem nas vossas prioridades.

PS: se a vossa preocupação é o bronze, usem auto-bronzeadores. Simples. E assim sobra-vos tempo para fazerem coisas bem mais interessantes entre as 12h-16h do que ficar a torrar ao sol. Ler um livro à sombra, por exemplo…

Uma das questões que continua a ser importante para mim é a embalagem ser o mais sustentável possível. Tendo em conta que o alumínio é um dos materiais mais sustentáveis (é mais barato reciclar do que fazer de novo, pelo que a grande maioria do alumínio que usamos hoje é já reciclado, pode ser infinitamente reciclado e, por ser tão leve, faz com que a pegada de carbono do transporte não seja tão “pesada” como a das embalagens de vidro), procurei encontrar protetores embalados em alumínio.

Assim, embora existam protetores solares minerais muito bons nas farmácias – vejam os da Avène! – e em lojas bio em Portugal (a Inês Pais recomendou há dias um da Acorelle que se vende no GoNatural), as duas sugestões que vos deixo de seguida, não só são minerais, sem nanopartículas de zinco e estão aprovadas pelo CPNP, como são as que têm o packaging mais sustentável. Volto a reforçar: são sugestões mais sustentáveis, MAS se não funcionarem para vocês passam a ser as MENOS sustentáveis. Eu estou a tentar ir buscar o melhor do melhor em termos de filtros – atenção que têm de estar registados no portal europeu CPNP, para terem a certeza que os filtros são eficazes! – e em termos de packaging. Se não correr bem volto aos meus protetores normais, de filtros químicos e embalagem de plástico. SIMPLES: SAÚDE PRIMEIRO.

Rokai (MindtheTrash) – não contém nanopartículas de óxido de zinco (para mim não é opção porque tem óleo de coco). Vem em embalagens de alumínio e é vegan 🙂

Imagem: Amazinc

Amazinc (vende-se na Plastic Freedom e no site deles também) – não contém nanopartículas de óxido de zinco. Não é vegan (tem cera de abelha), mas como não tem óleo de coco e encontra-se em embalagens de alumínio e de cartão, acho que é a opção mais sustentável (embora tenha de vir da República Checa, onde é produzido… tenho de investigar a pegada de carbono para ver se faz sentido mandar vir). Se alguém quiser mandar vir, digam e juntamos a encomenda!

PS: Gostaram do artigo ou foi-vos útil de alguma maneira? Se quiserem e fizer sentido, deixo AQUI um link onde me podem oferecer um café (ou chá, que eu sou mais de chás quentinhos), para me acompanhar nas próximas horas de investigação a preparar os artigos que encontram aqui no site 🙂

2 comentários em "Protetores solares e o ambiente"

  • Alexandra Amorim
    27/07/2019 ás 11:30

    Muito obrigada pelo artigo! Muito esclarecedor. Sabe-me dizer se o óxido de zinco usado nos “cremes de fraldas” tb contém nanopartículas? Obrigada

    Responder
    • 29/07/2019 ás 12:43

      Olá 🙂 Obrigada pelo comentário, fico feliz que tenha sido esclarecedor!
      Acho que terá de ser visto caso a caso. No entanto, se for um creme vendido na União Europeia (numa farmácia ou parafarmácia), à partida terá de conter ingredientes que sejam aprovados pela mesma e, como tal, seguros para a utilização em bebés.

      Responder

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